Não vai dizer que você também não sabe que Roberto Carlos tem uma perna mecânica? Sempre ouvi esta história em casa como sendo verdadeira. A conheço desde tenra idade e talvez por ter crescido com esta informação, acreditava que todos também a soubessem. É provável que os imitadores do Roberto, quando arrastam uma perna nas sátiras, pensem como invariavelmente pensei.
Foi o Rei completar 50 anos de carreira para perceber que poucos tinham conhecimento deste fato. Há bem da verdade, conversei com mais de dez conhecidos – entre eles minha esposa – e nenhum sabia que Roberto Carlos tinha uma perna mecânica. De quebra, ainda, me chamaram de mentiroso.
Esta história, se real, pode ser abordada sobre alguns aspectos. Um deles, o da superação. Roberto Carlos se tornou Rei e jamais precisou mendigar chances ou expor seu drama de infância para se beneficiar. A quem conhecer este fato histórico deste capixaba, que saiba ver que é possível vencer e que um dom nem sempre é detratado por uma deficiência. Outro ponto a ser observado nesta história, é como Roberto Carlos consegue se preservar num mundo com a imprensa cada vez mais cruel, sanguinária e sedenta por apelações pessoais dos famosos (vide, admito, este texto).
Percebi o número de desconhecedores desta história aumentar consideravelmente nos últimos meses. Resolvi tentar esclarecer e afirmar pra mim mesmo: é verdade, Roberto Carlos tem uma perna mecânica, meu pai não mentiu!
O primeiro passo foi pesquisar sobre a infância do pequeno Zunga, apelido de Roberto Carlos, que ainda criança aprendeu a tocar violão e piano com sua mãe. Mais tarde, entrou para o Conservatório Musical de Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, no Espírito Santo.
Aos seis anos de idade, a suposta fatalidade: durante a festa de São Pedro, padroeiro de Cachoeiro, no dia 29 de junho de 1947, Roberto Carlos teria sido atropelado por uma locomotiva a vapor. O futuro Rei da Jovem Guarda estaria distraído na plataforma de embarque da estação com sua coleguinha Fifinha. Quando o trem surgiu como um dragão de aço expelindo vapor de suas entranhas, a professora das crianças assustou-se e bruscamente tentou afastar os dois. Roberto, de costas para os trilhos – de acordo com Paulo César de Araújo, autor da biografia proibida de Roberto Carlos –, caiu.
Às pressas, segundo Paulo César, levaram o garoto ao Hospital da Santa Casa de Misericórdia. O pequeno Zunga não chorava. A preocupação do menino era a de não sujar seus sapatos novos.
O médico, revelou Paulo César, precisou de uma hora para limpar o ferimento coberto por graxa, lama e areia. Depois teve que tomar a decisão de amputar parte do membro inferior esquerdo de Roberto na altura da canela.
Dotado destas informações, fui atrás de um algo mais: uma pista em sua obra com mais de 600 composições. Li letra por letra, de cada música de Roberto Carlos. Em duaso que procurava. Abaixo, a música completa O Divã, com uma mensagem clara, e trechos da sugestiva Traumas.
O Divã
Relembro a casa com varanda / Muitas flores na janela
Minha mãe lá dentro dela / Me dizia num sorriso
Mas na lágrima um aviso / Pra que eu tivesse cuidado
Na partida pro futuro / Eu ainda era puro / Mas num beijo disse adeus
Minha casa era modesta mas / eu estava seguro
Não tinha medo de nada / Não tinha medo de escuro
Não temia trovoada / Meus irmãos à minha volta
E meu pai sempre de volta / Trazia o suor no rosto
Nenhum dinheiro no bolso / Mas trazia esperança
Essas recordações me matam / Por isso eu venho aqui
Relembro bem a festa, o apito / E na multidão um grito
O sangue no linho branco / A paz de quem carregava
Em seus braços quem chorava / E no céu ainda olhava
E encontrava esperança / De um dia tão distante
Pelo menos por instantes / encontrar a paz sonhada
Essas recordações me matam / Por isso eu venho aqui
Eu venho aqui me deito e falo / Pra você que só escuta
Não entende a minha luta / Afinal, de que me queixo
São problemas superados / Mas o meu passado vive
Em tudo que eu faço agora / Ele está no meu presente
Mas eu apenas desabafo / Confusões da minha mente
Essas recordações me matam / Essas recordações me matam
Trecho da música "Traumas":
Meu pai um dia me falou / Pra que eu nunca mentisse
Mas ele também se esqueceu / De me dizer a verdade
Da realidade do mundo / Que eu ia saber
Dos traumas que a gente só sente / Depois de crescer
Falou dos anjos que eu conheci / No delírio da febre que ardia
Do meu pequeno corpo que sofria / Sem nada entender
Durante o dia a gente tenta / Com sorrisos disfarçar
Alguma coisa que na alma / Conseguimos sufocar
Agora eu sei o que meu pai / Queria me esconder
Às vezes as mentiras / Também ajudam a viver
Até os 15 anos, Roberto Carlos teria usado muletas e logo depois colocado sua primeira prótese.

8 comentários:
Só descobri esse ano :|
Se é verdade, eu só fiquei sabendo agora. :Z
Desde q eu era pequeno, eu ouvia a 'piada' que dizia q o Roberto Carlos brincava de pirata da perna-de-pau com o Wagner Montes...
Muito bom o teoxt, eu sempre soube dessa perna mecânica dele, e que tinha sido um 'trem', mas não sabia desses 'detalhes'.
De fato a música Traumas parece fazer sentido com tudo isso.
"Lá em casa" isso sempre foi tratado como verdade absoluta desde que me lembro por gente. Se é verdade de fato eu nunca pude saber...
Bem, até agora.
É otimo Posta mesmo.
Muito bom pelo conteudo e comentario sobre as musicas.
Meu pai sempre foi fan do Roberto Carlos, chegou a frequentar shows dele nos bastidores, mas hj ja era, e isso realmente é verdade.
Erikson Moreira
sou fã do rei, desde a jovem guarda, e sempre soube dessa historia, que le foi atropelado por um trem. mais o que importa isso agora? afinal o rei só nos deu alegriae contina com legião de fãs por todas as gerações.Com ou sem pernas ele será sempre perfeito em tudo!!!!!
nossa , eu não sabia desse fato, eu vi hoje em um blog e resolvi saber mais sobre o assunto, e realmente é verdade. obrigado pelo post.
abraço.
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